Continuamos a introduzir manualmente informação que já existe nos documentos

A digitalização dos processos documentais trouxe enormes ganhos às organizações.

Os documentos deixaram de circular exclusivamente em papel, passaram a ser carregados em plataformas e podem hoje ser consultados praticamente a partir de qualquer lugar.

Mas existe uma parte do processo que, em muitas organizações, continua praticamente inalterada.

A informação que já está dentro dos documentos continua a ser introduzida manualmente noutros sistemas.

Um colaborador abre um certificado, procura o nome, identifica a entidade emissora, verifica a data de validade, lê a competência e copia cada um destes elementos para campos da plataforma.

O ficheiro é digital.

O processo, no entanto, continua parcialmente manual.

 

O custo escondido da introdução manual

Quando analisamos apenas um documento, copiar alguns campos pode parecer uma tarefa insignificante.

O problema surge quando esta operação é repetida centenas ou milhares de vezes.

Uma organização que gere documentação de trabalhadores, fornecedores e equipamentos pode receber diariamente um volume significativo de:

  • certificados de formação;
  • fichas de aptidão;
  • declarações;
  • apólices;
  • relatórios;
  • inspeções;
  • certificados técnicos;
  • licenças;
  • autorizações;
  • registos de manutenção.

Cada documento pode obrigar a abrir, interpretar, localizar e transcrever diferentes elementos de informação.

O resultado é uma quantidade relevante de tempo dedicada a tarefas que não acrescentam diretamente conhecimento ao processo.

 

A informação já existe

Considere um certificado de formação.

O documento pode conter:

  • nome do trabalhador;
  • entidade emissora;
  • designação da formação;
  • número do certificado;
  • data de emissão;
  • data de validade;
  • duração;
  • competência adquirida.

Se estes dados já estão no documento, porque devem ser novamente introduzidos manualmente?

É aqui que tecnologias de OCR e Inteligência Artificial podem apoiar uma nova abordagem.

 

Da leitura automática à extração estruturada

O primeiro passo é conseguir ler o documento.

Mas ler não é suficiente.

Uma solução inteligente deve conseguir identificar o significado da informação.

Encontrar uma data não basta.

É necessário perceber se corresponde à data de emissão, à validade ou a outra referência.

Encontrar o nome de uma empresa também não significa saber automaticamente se corresponde à entidade emissora, ao empregador ou ao cliente.

Por isso, um processo robusto precisa de combinar diferentes capacidades:

Leitura → identificação → extração → estruturação → validação

O objetivo é transformar elementos existentes no documento em dados estruturados que possam ser utilizados pelos restantes processos.

 

O que pode ser extraído?

Dependendo do tipo documental, podem ser extraídos dados como:

  • nome do titular;
  • empresa;
  • entidade emissora;
  • número do documento;
  • datas;
  • validade;
  • competência;
  • formação;
  • função;
  • equipamento;
  • número de série;
  • resultado;
  • referências específicas.

A informação relevante varia de documento para documento.

É por isso que a configuração do processo continua a ser essencial.

 

Menos introdução manual, menos possibilidade de erro

A transcrição manual é repetitiva e está sujeita a falhas.

Podem ocorrer:

  • erros em datas;
  • nomes escritos incorretamente;
  • números de certificado incompletos;
  • associação ao trabalhador errado;
  • classificação incorreta;
  • informação omitida.

A extração automática pode reduzir grande parte desta transcrição.

As equipas passam a concentrar-se mais na validação das exceções e menos na cópia de dados.

 

A informação passa a alimentar outros processos

O verdadeiro ganho não termina na extração.

Quando a informação é estruturada, pode ser utilizada por diferentes componentes da organização.

Uma data de validade pode gerar um alerta.

Uma competência pode alimentar uma matriz de competências.

O titular pode ser comparado com o trabalhador associado ao documento.

A entidade emissora pode fazer parte das regras de validação.

Os dados podem alimentar dashboards e indicadores.

A documentação passa, assim, de uma lógica estática para uma lógica operacional.

 

Extrair não significa aprovar

Existe, no entanto, uma distinção fundamental.

A capacidade de extrair informação de um documento não significa que a plataforma deva aprová-lo automaticamente.

Um certificado pode indicar “Trabalhos em Altura”, mas ainda pode ser necessário verificar:

  • se pertence à pessoa correta;
  • se está dentro da validade;
  • se corresponde ao requisito do projeto;
  • se a entidade emissora é adequada;
  • se a formação é suficiente para a função;
  • se existem outros requisitos obrigatórios.

 

Por isso:

extração de dados ≠ decisão de conformidade

A extração reduz tarefas administrativas.

A conformidade exige regras, contexto e critérios de decisão.

 

Quando a análise humana continua necessária

Nem todos os documentos são claros.

Existem documentos digitalizados com baixa qualidade, informação contraditória, campos incompletos ou terminologia difícil de interpretar.

Nesses casos, a tecnologia deve saber parar.

Quando não existe informação suficiente para uma decisão segura, o documento deve seguir para análise humana.

A automação eficiente não é aquela que tenta decidir tudo.

É aquela que automatiza o que é claro e encaminha corretamente as exceções.

 

Dados documentais ao serviço da operação

Quando os dados são estruturados, tornam-se possíveis processos que anteriormente exigiam consulta manual.

Por exemplo:

  • identificar documentos próximos da expiração;
  • saber que trabalhadores possuem uma competência;
  • visualizar fornecedores com requisitos pendentes;
  • acompanhar documentação por projeto;
  • alimentar dashboards de conformidade;
  • identificar prioridades de análise.

A informação deixa de estar fechada dentro dos ficheiros.

Passa a estar disponível para apoiar a decisão.

 

Da documentação à operação

A evolução pode ser resumida assim:

Modelo tradicional:
Documento → leitura humana → introdução manual → validação

Modelo apoiado por IA:
Documento → extração de dados → estruturação → regras → validação → decisão

O documento continua a ser a evidência original.

Mas a equipa deixa de ter de repetir manualmente a informação que já existe.

 

Menos tarefas repetitivas. Mais valor humano.

O objetivo da Inteligência Artificial na Gestão Documental não deve ser substituir o conhecimento das equipas.

Deve ser utilizá-lo melhor.

Um técnico especializado acrescenta mais valor a analisar uma situação ambígua, uma não conformidade ou um requisito complexo do que a copiar uma data de validade de um PDF para um campo.

É precisamente aí que está uma das maiores oportunidades da automação documental.

Retirar às pessoas as tarefas repetitivas para lhes devolver tempo para tarefas que exigem julgamento, conhecimento e decisão.

A informação já existe dentro dos documentos.

A tecnologia pode ajudar a extraí-la. E as equipas podem concentrar-se naquilo que realmente exige inteligência humana.